NEOARQUEO
30 abril 2009
  O Marco Miliário do Imperador Licínio...luz sobre a via romana dos "Barreiros"



No penúltimo número do jornal de Mangualde “Notícias da Beira”, na minha Coluna “O Lugar da História” publiquei um artigo sobre a descoberta da Calçada dos Barreiros, troço de uma via romana na zona de Pinheiro de Baixo. Pois bem, este troço é inédito, aliás deixou se ser com a publicação neste jornal e com o processo de classificação que enviei ao ex-IPA, de Viseu.
Mas a Arqueologia é feita da junção de pequenos elementos, que muitas vezes teimam aparentemente em não encaixar uns nos outros. Mas da parte dos arqueólogos a paciência é uma virtude que se tem que ter em conta. O meu amigo e arqueómano João Ferreira, estudioso da viação romana do concelho de Mangualde, insiste que das vias romanas vindas de Viseu para Mangualde a principal entrada seria em Alcafache, galgando por aí o Dão. Sustenta ainda que essa via rumaria de forma a bifurcar, pelo menos, no Cruzeiro da Lama, dando origem a várias que seguiriam os diversos caminhos do Império.
Eu acrescento, suportado nas evidências por demais conhecidas e estudadas, que uma outra passagem poderia dar-se em Fagilde, e levaria o “trânsito” não só para Mangualde, passando na Roda, como para outras paragens do Norte.
Porém, o Cruzeiro da Lama (Tibaldinho) tem necessariamente um papel importante na distribuição da malha viária que atravessava Mangualde.
O Cruzeiro da Lama seria o nó a partir do qual as várias ramificações partiriam; não só para o actual concelho de Mangualde, como para o actual concelho de Nelas. Ressalve-se que, para além das várias teorias existentes e dadas como certas, para nós ainda é prematuro, dado os elementos que temos em posse, traçar o rumo das vias que até agora ainda não foram referidas, mas que estamos convictos que existiram….
Assim, como hipótese inicial, podemos apontar que uma das ramificações a partir do Cruzeiro da Lama seguiria, para já, dois possíveis trajectos:
1- Saindo do Cruzeiro da Lama passaria por Tibalde, passando entre Fornos do Dão, Vila Garcia e Tabosa dirigindo-se à Roda, indo dar directamente a Mangualde, na zona de São Cosmado - Ançada - (Em São Cosmado foi encontrada a Placa honorífica que fala do Castellum Araocelensis – que pode ser a Mangualde Romana - passando junto ao sítio onde mais tarde foi construida a Igreja Matriz de Mangualde).
2- Pela zona do Mosteirinho a via seguiria por Lobelhe do Mato, Moimenta do Dão, Gandufe e Espinho e continuandopara terras de Senhorim. Mas, na zona de Moimenta do Dão, na nossa opinião, a via bifurcaria em direcção a Mangualde, passando entre Água Levada, Pinheiro de Baixo, Santa Luzia / Santo Amaro, entroncando na zona de Ançada – São Cosmado e entrando em Mangualde. De referir que também nesta linha são abundantes os sítios arqueológicos romanos.
É esta “nova via” que até hoje não foi referida por nenhum historiador ou arqueólogo, mas que tem razão de ser, e que detectámos um troço excelentemente bem conservado e sobre o qual dei conta no Jornal e que publico aqui uma fotografia.
Desabafei, no debate de ideias, com João Ferreira, que estava a fazer falta um Marco Miliário naquela zona para se poder “alinhavar” uma tese.
Esse Marco apareceu…
Em consulta aos registos das batidas de campo já efectuadas no concelho, casualmente, pois estava a reunir elementos para uma nova publicação que em breve sairá, dei de caras com o Marco Miliário do Imperador Licínio.
No “Património Arqueológico do Concelho de Mangualde” Luís Filipe Gomes e Pedro Sobral de Carvalho afirmam que sempre se considerou Mangualde como o local de achado deste marco erigido no século IV d.C. pelo Imperador Licínio.
Segundo Marques Marcelino, eminente historiador e amigo de longa data, este monumento foi encontrado, aquando de uma lavra de terreno, tombado e parcialmente enterrado no sítio de Chãos, sensivelmente a 3 KM SO de Mangualde e a cerca de 2 KM O de Água Levada. Durante longos anos serviu de banco junto a uma casa em Santa Luzia…Actualmente encontra-se no acervo arqueológico do Museu de Grão Vasco. Este marco indica, na sua inscrição onze milhas e por isso os autores da referida obra mantêm a sua localização inicial em Mangualde, pois é a distância que separa Viseu de Mangualde.
No entanto, é também esta a distância que separa Viseu de Mangualde, seguindo o trajecto que acabámos de elaborar neste momento. O local original de colocação do Marco é de todo desconhecido (a certeza são as onze ou doze milhas, conforme a leitura epigráfica), porém este não terá reaparecido muito longe do local original de implantação, dada as suas dimensões e peso.
Ora, baseando-nos em Marques Marcelino, o aparecimento dá-se no sítio por ele já referido (e que não é Mangualde) e o seu último paradeiro é Santa Luzia (Cães de Baixo).
O troço da Calçada Romana dos Barreiros, junto a Pinheiro de Baixo fica precisamente no seguimento dessa linha viária, e o seguimento da via vai passar precisamente perto de Santa Luzia e Santo Amaro, tendo com destino a zona de Ançada / São Cosmado. Por outro lado as milhas (onze ou doze) inscritas no Marco coincide com a distância entre Viseu e o lajeado dos Barreiros. No final da curva, ao lado direito da rampa lajeada surge um monólito que parece um pedestal. Este Marco será muito provavelmente desta via, agora denominda por "Calçada dos Barreiros". Parece-nos, portanto, verosímil que esta via tenha inicio no cruzeiro da lama e em Moimenta do Dão bifurcaria à esquerda, largando a que seguia para Gandufe e Espinho em direcção ao Mondego por Senhorim.
Não esqueçamos que o Marco é do século IV d.C., uma altura em que a malha da viação romana estaria já certamente bem desenvolvida.
Estamos perante uma hipótese. Outros estudos estão a ser desenvolvidos no sentido da sua validação, ou não desta teoria. Para já gastas vão ficando as botas na batida de campo. É que a Arqueologia tem destas coisas…
No número do dia 20 de Maio este artigo será publicado no NB (Notícias da Beira).
 
24 abril 2009
  Semana de batida de campo
Esta semana, que hoje acaba, em termos de dias "úteis", foi riquíssima em batidas de campo. Muito frutíferas devo dizer.
Na companhia do arqueómano João Ferreira, e a visitar os sítios que ele já localizara anteriormente, dei, eu e ele, conta de uns quantos sítios arqueológicos inéditos no vastíssimo concelho de Mangualde.
A saber:
- duas sepulturas escavadas na rocha, interessantíssimas e inéditas.
- Identificação de lageados de período indeterminado mas por trilhos que conduzem a troços de lageados romanos já estudados.
- Mais identificação e contagem de outro património, inclusivé da esfera do intangível.
A seu tempo, e depois de devidamente estudados e analisados os diversos "materiais", os resultados serão publicados aqui neste nosso sítio.
 
21 abril 2009
  Sepulturas escavadas na rocha: preservação ou abandono?


Deixo aqui o link de acesso à adenda electrónica da revista Al-Madan. O artigo que aí publiquei está na adenda nº 14 e tem o título deste post.
Já foi publicado em 2oo6, mas em certos concelhos faz sentido que seja lido, digo eu, por uma questão de preservação do Património, neste caso arqueológico.
Ao clicar neste link é remetido para o espaço das adendas electrónicas, depois clica na adenda nº 14, a página é a 6.

http://www.almadan.publ.pt/AdendaElectronica%20(geral).htm
 
15 abril 2009
  Visita da USAMA a Terras de Algodres

Para comemorar o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, no próximo dia 18 de Abril, encetei uma actividade de visita à Colecção Visitável de Arqueologia de Fornos de Algodres. Esta iniciativa insere-se no programa de Visitas de Estudo da cadeira de Património Histórico da Universidade Sénior de Rotary Mangualde (USAMA).
Assim, o passeio consta desta visita à Colecção Arqueológica do CIHAFA, à necropole alto-medieval das Forcadas, ao Dolmen de Matança e de Cortiçô, à Fraga da Pena , à Capela de Santo Cristo de Sobral Pichorro, ao castro de Santiago, em Figueiró, entre outros locais de interesse histórico-cultural.
Um excelente almoço, constituído pelas melhores iguarias das faldas da Serra da Estrela nos há-de esperar no "Abrigo das Courelas".
Naturalmente que me compete, em nome de toda a Direcção da Universidade Sénior, agradecer à Câmara Municipal de Mangualde a disponibilização do Autocarro para o transporte.
Gostaria de fazer um convite a todos quantos lerem este comunicado mas, uma vez que este dia está a ser comemorado por todo o Portugal, temo que não aceitem. Mas...se alguém puder aparecer, a USAMA andará por Terras de Algodres e certamente nos encontraremos.
 
09 abril 2009
  Carta Arqueológica de Abrantes

Com a devida vénia, procedendo de Archport, segue o Convite para a presentação da Carta Arqueológica de Abrantes. A Arqueologia a mexer. Quem estiver por perto...
 
08 abril 2009
  Lusitania

proveniente de Histoprt, e com a devida vénia, divulgo:


As Antiguidades da Lusitânia
Autor: André de Resende. Tradução de R. M. Rosado FernandesLíngua: Português/ LatimISBN: 978-989-8074-80-5Editora: Imprensa da Universidade de CoimbraEdição: 1.ªData: Março 2009N.º Páginas: 510
Sinopse
Esta obra do Antiquário eborense, representa a primeira descrição doquadro histórico e cultural em que Portugal se fundou e cresceu. Nelase podem apreciar as características étnicas e a vida das gentes quepovoaram as regiões que em grande parte se tornaram no que é hoje oterritório português, em particular a saga dos lusitanos, e bem assima variada estrutura geográfica e as condições naturais do próprioterritório, reunindo para isso pela primeira vez um precioso caudal dedocumentação sobre a história da antiga Lusitânia. E tudo num estiloliterário próprio de um dos maiores humanistas portugueses de sempre.


A foto é "Lusitania no bairro latino" , quadro de Júlio Pomar
 
07 abril 2009
  Viriato e Viseu...E Mauricio Pastor Muñoz?

Nós, os beirões da Beira Alta, dizemos cheios de orgulho que Viriato, o grande chefe dos Lusitanos, é da mui nobre e vetusta cidade de Viseu. Porém, se formos, na mesma Beira Alta, até Folgosinho, no concelho de Gouveia, bem lá no alto da Estrela, lá nos espera uma estátua dedicada ao condutor de homens que se opôs aos exércitos de Roma.
Não nos fiquemos por aqui, Zamora, em Espanha, dedica um praça e uma estátua a Viriato. As últimas investigações indicam que, não se sabendo com exactidão o seu local de origem, apontam, todavia, para o facto de este ter o seu "quartel general" mais para terras da Extremadura Espanhola. Assim, e lendo o livro de Mauricio Pastor Muñoz "Viriato", fica-se com a ideia, bastante fundamentada, que foi pela zona de Cáceres e suas serranias que este "pastor" terá assente arraais.
Já outros estudiosos dos lusitanos apontam como improvável que os Lusitanos resistentes às legiões romanas não poderiam ter "sede" no lado atlântico da Serra da Estrela. A base de sustentação desta teoria é fundametalmente de ordem geográfica e de relevo, assentando, óbviamente em investigações criteriosas. Na realidade, se o bastião de Viriato se situasse em Viseu teríamos de admitir que os Romanos teriam já a Serra da Estrela subjugada a Roma. A exércitos tão bem treinados e organizados como os de Roma, uma vez transposta a Estrela, não seria difícil a ocupação total da Hispanea, e em menos tempo do que os relatos tradicionalemente relatam.
Os lusitanos, e o seu chefe, teriam de estar mais avançados em termos de território ibérico e sempre para oeste da Estrela (Cova da Beira).
Esta teoria, baseada em rigoras investigações, é suportada por diversos autores: Jorge de Alarcão, por exemplo e mais recentemente pelo autor do livro que, en passant, referi, que os atira para as bandas de Cáceres, lá mais para a Sierra de San Pedro. Leiam, vale a pena.
É da Ésquilo, passe a publicidade.
 
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António Tavares. Arqueólogo e Gestor do Património Cultural. Actividade liberal, Arqueoheje e Município de Mangualde.


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