NEOARQUEO
18 novembro 2007
  Castro Bom Sucesso (continuação)

Na realidade, os diversos achados à superfície e sem contexto estratigráfico, resultantes do revolvimento das terras e também dos achados e explorações de Leite de Vasconcelos nos finais do século XIX e inícios do século passado, bem como dos relatos do Dr. José Coelho, anunciam que este Castro teve ocupação no Período do Bronze Final: dois machados de talão, em bronze e que hoje se encontram no Museu Nacional de Grão Vasco. Apareceram também frgamentos de carâmica com decoração do tipo de Baiões / Santa Luzia, tipo Cepillo, paredes brunidas, bordos denteados, taças carenadas, pesos e outro material.

No lado SSO existe uma estrutura amuralhada constituida por pedras pequenas e médias que tinha por objectivo a defesa de uma plataforma onde aperecem apenas vestígios desta época.

Mas, é do período posterior, denominado de Ferro, e do período Romano, e que se estende pela parte mais alta do monte, a ocupação mais relevante desta continuidade de povomante neste local. Aqui surgiu um espólio baseado fundamentalmente em cerâmica de construção, cerâmica comun, parte de uma lucerna decorada ( pequena candeia romana que, com azeite, servia para iluminar), sigillata hispânica ( cerâmica de ir à mesa, mas para ocasiões especiais, equivalente às nossa baixelas de porcelana, por exemplo). Antes da ocupação Romana é de referir que as casas de habitação deste castro eram as típicas da Cultura Castreja ou circulares ou rectangulares. Leite de Vasconcelos refere a existência dos dois tipos de plantas e que ocupavam uma vasta área do monte. Aliás este mesmo autor refere a existência de cerca de 80 a 100 casas de planta rectangular que, pela disposição, formavam ruas.

Tal como os outros castros da Peninsula Ibérica também este foi romanizado, aliás os diversos materiais tipicamente romanos provam isso mesmo, bem como as técnicas de construção das casas ou a adopção de novos materias de construção. Por exemplo, o colmo ou outros materias vegetais que preferencialmente eram utilizados como telhado das casas foram gradual e consistentemente substituidos pelas telhas cerâmicas romanas.

Importante referir que os machados de talão e de aselhas são uma especialidade Ibérica, do chamado Bronze Atlantico. Autores há que apresentam o machado de talão uniface como sendo tipicamente "português", sobretudo da zona centro, enquanto que o tipo de talão e duas aselhas é hispanico. Ora no castro de Bom Sucesso surgiram os dois tipos. Este tema poderá vir a ser tratado mais adiante.

Publico o desenho de carlos C Gomes sobre os machados do castro de Bom Sucesso.
 
<$Comentários$>:
Sobre a intervenção de José Leite de Vasconcellos veja-se o que escrevi com base no seu caderno de campo (http://www.box.net/shared/qmv1tunmeo.
Leite de Vasconcellos foi o primeiro (mandar) escavar o Castro do Bom Sucesso, ainda hoje se encontra no Museu Nacional de Arqueoogia um fragmento de cerâmica tipo Baiões/Santa Luzia, e no Museu da Sociedade Marins Sarmento vários fragmentos de "terra sigillata" recolhidos nas suas escavações de 1892.
 
Os machados foram encontrados durante as obras de melhoramento do Monte levadas a cabo por David Sul da Costa.
Apesar de os ter prometido a José Coelho, tentou vende-los em Lisboa, tendo mais tarde dado entrada no Museu Grão Vasco, onde ainda hoje se encontram.
Sobre as obras levadas a cabo por este individuo leia-se o que escreveu José Coelho na sua "Beira Histórica, Arqueológica e Artística: Memórias de Viseu (arredores)", pág. 396, nota 1:
"Em Setembro de 1938 um individuo, que consta ter-se divorcado e casado 2ª vez, a quem a padroeira da capela fez o milagre de dar um filho, quiz exteriorizar a sua satisfação mandando levantar uma pirâmide no ponto culminante do crasto. Conseguiu este benérito todas as facilidades para a sua empresa; de lamentar é que a obra tão ligeira, deselegante e inútil haja ocasionado vandalismos irremediáveis, como a violação de túmulos castrejos e a destruição de muitos objectos de incontestável valor arqueológico. Quando serão cumpridas as Leis protectoras dos monumentos, obras e espécies de arte e arqueolgia nacionais? Este benemérito a quem se deve a pirâmide ou pinôco (como lhe chamam) de alvenaria, revestida de cal (a qual há muito deve ter desaparecido), num gesto de modéstia bem característico, andou a distribuir quadros de azulejos com os nome dele, do desejado filho, produto milagroso da Senhora do Bom Sucesso, e da mãe que o concebeu, no interior e exterior da capela e no pinôco, onde para imprimir um cunho de mais completo regionalismo, colocou também um pano de azulejos representando o Castelo da Feira!"
 
Amigo António Tavares;

É sempre um prazer passar por cá, por este manancial de informação.

Deixo-lhe um abraço.
IM
 
De facto este castro está um pouco ao abandono... quem não souber que o é, bem que o pode visitar e ficará apenas com a sensação de que é mais um Marco Geodésico com uma bonita vista.
Para mim, tem um valor especial!

Bom fim de semana.
 
Gosto sempre de ler o que o meu amigo escreve por aqui. Quando se trata daqueles lugares ainda maior é o interesse porque foi por ali que eu nasci.

Um abraço

PS - Pode ter sido um nativo a perder o machado quando tentava desviar mais um marco e foi apanhado pelo vizinho...
 
A continuar assim um dia ficaremos sem o monte , esta a ser escaado pela base daqui a uns anos se não se fizer nada o monte vai sendo transformado em azulejo
 
Cumprimentos Tavares.

Mais uma excelente aula de arqueologia.

um abraço
 
Os «artefactos» estão mt parados por aqui...
;-)
 
Professor Tavares:
Gostámos da sua meditação profunda
sobre as passagens desta vida.
Um abraço das amigas
Mirita e Júlia.
 
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António Tavares. Arqueólogo e Gestor do Património Cultural. Actividade liberal, Arqueoheje e Município de Mangualde.


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