NEOARQUEO
13 março 2006
  Abrunhosa-a-Velha na rota do Império Romano

Na localidade de Abrunhosa-a-Velha foram encontrados quatro marcos miliários, dois dos quais contendo ainda a sua epígrafe. Foi em 1938 que José Coelho fez referência a três, e mais tarde Moreira de Figueiredo refere também a existência de mais um. Como era tradição, foram conduzidos para o futuro Museu Etnológico da Beira, em Viseu. Fontes consultadas referem que apenas se conhece, na actualidade, o paradeiro de um deles, integrando a colecção epigráfica da Assembleia Distrital de Viseu (ADV), sob o nº de inventário 605.

Os marcos miliários, colunas normalmente cilíndricas em pedra, eram colocados ao longo das estradas com o intuito de informar as distâncias em milhas. Para além desta informação preciosa para o viajante, continham também, na maioria dos casos, o nome e títulos do imperador que procedia à construção ou reparação das vias.

O Marco Miliário que hoje ainda se encontra na ADV à data da sua descoberta estava a servir de ombreira num tosco portal do pátio de entrada da casa de José de Sousa, ao largo do Soalheiro (foto). É uma coluna cilíndrica com base cúbica, talhada no próprio monólito, medindo 184 cm de altura, 36 cm de diâmetro e o lado da base 52 cm. Tem a seguinte epígrafe:

[I]MP(erator) CA(esar) / DIVI F(ilius) / PARTHIC(us) / NERVA(e) NE(pos) / TRAIANV[S] / HADRIANO AVG(ustus) / POT(estas). NIA / [T]RIBVNIC(ia) / V(quintum) CO(n)S(ul).III(tertium) R[EFEC]IT / M(ília) XVIII (duodeviginti)

Tradução: O Imperador César Trajano Adriano Augusto, filho do divino Pártico, neto de Nerva, dotado do poder tribunício pela quinta vez, cônsul pela terceira, refez (esta via). Milha dezoito.

Ficámos a saber que o Imperador Trajano, por volta dos anos 120-121 mandou reparar esta via de circulação. A milha 18 indicaria, a distância onde este marco estaria colocado em relação a Viseu.

Um dos outros marcos miliários da Abrunhosa estava a servir de suporte a um alpendre, na casa de Flávia Pais de Figueiredo. Media 160 cm de altura e 50 cm de diâmetro, com base cúbica.

A sua inscrição apresentava algumas letras referindo o imperador Numeriano, segundo a leitura feita por Russell Cortez e por José Coelho, que exerceu o seu consulado entre os anos de 283-284. Isto pode indicar, então, que esta via sofreu nova reparação nesta altura.

O terceiro marco encontrava-se na época a servir de coluna ao fundo da escada da casa de João de Sousa, perto do largo do pelourinho. Media 190 cm de altura e 110 cm de diâmetro.

O quarto monumento, anepígrafo, media 200 cm de altura e 200cm de diâmetro.

Estes marcos pertenceriam à via que vinda de Braga (Bracara Augusta) e se dirigia à capital da Província da Lusitânia, Mérida (Emerita Augusta) passando por Viseu, Fagilde, Roda, Mangualde, Almeidinha, Cassurrães, Abrunhosa-a-Velha, Cabra, Belmonte e Idanha-a-Velha.

 
<$Comentários$>:
Bem meu amigo, um dia destes vou tirar umas fotos, pois a Junta de Freguesia andou a fazer uma grande limpeza ao que resta desta via.

Fico contente de ver aqui o nome da minha terrinha
 
TSFM, descobre lá a estrada Romana Abrunhosa do Mato Mangualde,ou para o Mondego? Um dia destes doute umas pistas.

Um Abraço.
 
Caro Tavares:
Sempre a ensinar-nos algo, ja agora diga-nos onde se encontram essas marcos? Ja foram colocados em local mais apropriado? Para alem da Senhora dos Verdes ja tenho outra razao para visitar a Abrunhosa-a-Velha.
Um Abraco.
 
Gostei de saber que a Abrunhosa já tinha uma IP do tempo romano. Quanto aos Marcos Miliários, no fundo, são a origem daquelas placas pequenas que vemos ao lado da estrada ainda na actualidade, com a diferença que não tem o nome do imperador, porque são muitos e estão sempre a rodar uns pelos outros.

Um abraço
 
Fagilde, Roda, Mangualde, Almeidinha, Cassurrães, Abrunhosa-a-Velha.

É deveras interessante este apontamento Histórico. Ao longo destes séculos, nós Mangualdenses, ainda não nos mentalizamos que tivemos grande importância e fomos passagem de rotas, rumo a outros mundos, rumo ao futuro. Hoje temos o IP5 a linha-férrea da Beira Alta e o que somos hoje?

Os achados, até concordo que estejam melhor guardados em Viseu, porque não temos neste Concelho condições para expormos os mesmos com a dignidade que merecem. Mas esta rota, Fagilde, Roda, Mangualde, Almeidinha, Cassurrães, Abrunhosa-a-Velha, o que é que os nossos responsáveis têm feito por ela até hoje?

Quando digo responsáveis são todos os Presidentes de Juntas de Freguesia, presidentes de Câmara, ninguém tem feito nada para preservar o nosso Património fixo.

Abraços
 
Hummmm,... com que então respondes so Renascimento... no Noticias da Beira.
Gostei de ver (e nem falta a publicidade ao respectivo blog) trés bien!
 
"respondes ao" e não "respondes so"
 
os marcos miliários em viseu não estão em melhor sitio. pois estão sujeitos às condições climatéricas num quintal da assembleia distrital cheio de mato.
a 1ª solução da câmara também não era melhor, pois queriam colocá-lo numa rotunda ou num jardim.
entretanto havia a proposta de montar uma exposição sobre o período romano na biblioteca com materiais da assembleia distrital, do museu grão vasco, do instituto portugu~es de arqueologia e de outras instituições locais. Estava a câmara em negociações com o museu e o IPA. Como o arqueólogo foi dispensado todo este projecto poderá estar comprometido. não sabemos quem ficou agora com o processo.
esperemos que estes materiais regressem em breve a mangualde e seja expostos num local condigno
 
A CMM dispensou o Arqueólogo?!!! Qual a razão? Não precisa? Mas, na altura em que o contratou precisava, certo?
Então que foi que mudou? Que alterações se verificaram para que repentinamente se dispense um técnico que tanta falta faz ao Património Concelhio? Será que a CMM pensa que o Património Histórico-Cultural fica melhor servido e preservado sem o olhar atento de um especialista? A razão desta dispensa não tem certa e definitivamente a ver com os requisitos do arqueólogo, pois conheço-o pessoalmente e afianço que o seu gabarito técnico e académico é extraordinário. Já li todos os seus trabalhos e intervenções escritas que produziu e curvo-me perante os seus conhecimentos e sabedoria. Dá-se a CMM ao luxo de dispensar alguém que está prestes a apresentar provas públicas de Mestrado, precisamente na área do património?
Mais cedo ou mais tarde todos nós viremos a conhecer as verdadeiras razões.
Pobres de nós que temos a governar-nos homens de cultura e que olham para ela com o desprezo e a indiferença que caracterizam os ignorantes.
Definitivamente, assim Mangualde não vai lá, não vai não.
 
sim senhor!! se calhar essa via romana passava pelo sitio onde eu passei grande parte da minha infancia entre a Abrunhosa a Velha e Vila Mendo, será que me fartei de "pisar" essa via sem saber??
Qual seria o percurso correcto (pelo menos entre Abrunhosa e Vila Mendo)??
 
Um dos próximos "posts" é colocar o mapa das "estradas" romanas no Concelho d emnagualde. É só aguardar um pouquito. è que os meus amigos gostam de me "encomendar" serviços e eu gosto de os satisfazer...
 
Tavares
Esses marcos são miliários e milenários. Por sorte foram poupados a uma picareta qualquer e chegaram até nós. Só espero que não se deteriorem ou desapareçam.
DEVIAM ESTAR EXPOSTOS NUM LOCAL APROPRIADO E SEGURO – UM MUSEU EM MANGUALDE.
Também já é mais do que tempo para Mangualde ter um espaço apropriado para o efeito. Há tanto para mostrar... Basta reunir o material referenciado que está disperso, arranjar uns euros para assegurar a instalação e funcionamento de um pequeno museu.
Será que a Administração Central não dá uma ajudinha se for apresentado UM BOM PROJECTO, BEM DINAMIZADO?
...
Estes romanos eram mesmo loucos! Gastaram tanto dinheiro em estradas e marcos miliários que ficaram sem cheta.
 
"A CMM dispensou o Arqueólogo?!!! Qual a razão? Não precisa? Mas, na altura em que o contratou precisava, certo?"

Cá está um bom post para desenvolveres
 
è o próximo...
 
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
 
Pelo diametro servia para satisfazer muitos politicos...
é pena ser rijo e frio como as pedras devem ser.
Vamos pegar em armas e reconquistar todas as reliquias arquitetonicas que o "novo Estado" nos tens gamado para as capitais.
 
Quando vi a fotografia...passou-se-me uma coisa "pela vista" que nem pude ler o texto!

Desejo de Uma Páscoa Feliz....
Beijossss (nossos) e um abraço (dele) hehehehehh

BShell
 
Soy un extremeño interesado por vuestras vías romanas, especialmente la que enlazaba Viseu con Mérida. Espero que en el próximo Congreso sobre calzadas romanas (de 14-16 de Septiembre) a celebrar en Viseu, se pongan en valor todas ellas y esos miliarios sean recogidos en un lugar apropiado.
Abrazos.
 
Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]





<< Página inicial
Espaço para reflexões sobre Património Cultural, Arqueologia, Historia e outras ciências sociais. Gestão e Programação do Património Cultural. Não é permitida a reprodução total ou parcial de qualquer conteúdo deste blog sem o prévio consentimento do webmaster.

A minha fotografia
Nome:

António Tavares. Arqueólogo e Gestor do Património Cultural. Actividade liberal, Arqueoheje e Município de Mangualde.


Arquivo
Setembro 2005 / Outubro 2005 / Novembro 2005 / Dezembro 2005 / Janeiro 2006 / Fevereiro 2006 / Março 2006 / Abril 2006 / Maio 2006 / Junho 2006 / Julho 2006 / Agosto 2006 / Setembro 2006 / Outubro 2006 / Novembro 2006 / Dezembro 2006 / Janeiro 2007 / Fevereiro 2007 / Março 2007 / Abril 2007 / Maio 2007 / Junho 2007 / Julho 2007 / Setembro 2007 / Outubro 2007 / Novembro 2007 / Fevereiro 2008 / Abril 2008 / Maio 2008 / Setembro 2008 / Outubro 2008 / Novembro 2008 / Dezembro 2008 / Março 2009 / Abril 2009 / Maio 2009 / Junho 2009 / Julho 2009 / Agosto 2009 / Setembro 2009 / Outubro 2009 / Dezembro 2009 / Janeiro 2010 / Abril 2010 / Junho 2010 / Setembro 2010 / Novembro 2010 / Janeiro 2011 / Fevereiro 2011 / Março 2011 / Abril 2011 / Maio 2011 / Junho 2011 / Julho 2011 / Agosto 2011 / Setembro 2011 / Outubro 2011 / Novembro 2011 / Dezembro 2011 / Janeiro 2012 / Abril 2012 / Fevereiro 2013 / Junho 2013 / Abril 2016 /




Site Meter

  • Trio Só Falta a Mãe
  • Memórias de Histórias
  • arte-aberta
  • Rede de Artistas do Arte-Aberta
  • Museu Nacional de Arqueologia
  • Abrunhosa do Mato
  • CRDA
  • Instituto Arqueologia
  • Terreiro
  • O Observatório
  • Domusofia
  • O Mocho
  • ACAB
  • O Grande Livro das Cabras
  • Teoria da conspiração e o dia dia do cidadão
  • O meu cantinho
  • Escola da Abrunhosa
  • O Fornense
  • Um Blog sobre Algodres
  • d'Algodres:história,património e não só!
  • Roda de Pedra
  • Por terras do Rei Wamba
  • Pensar Mangualde
  • BlueShell
  • Olhando da Ribeira
  • Arca da Velha
  • Aqui d'algodres
  • n-assuntos
  • Universidade Sénior Mangualde
  • Rotary Club de Mangualde
  • galeriaaberta
  • Francisco Urbano
  • LONGROIVA
  • Kazuzabar